Por que é
necessário dar mesada aos filhos?
“Quando eu tiver setenta anos então vai acabar
esta adolescência
vou largar da minha vida louca e terminar minha
livre docência (...)” Leminski.
Peter Pan, o menino que não queria crescer[1] criou
uma legião de seguidores em pleno século 21. Qual a família que não tem um
Peter Pan? Segundo alguns estudiosos do comportamento humano, são os nossos
“tios e tias” com mais de trinta anos que ainda moram e dependem dos pais
financeiramente e adiam as responsabilidades de viverem por conta e risco.
Para a educadora Tânia Zagury,[2]
amadurecer um filho-canguru é necessário alguns macetes. O primeiro deles é muito
simples, mas em relação aos filhos, simplicidade é algo complicado.
A escritora oferece uma listinha bem interessante sobre Direitos e
Deveres:
1. Fazendo com que tenham direitos e deveres;
2. Mostrando que são capazes de assumir
responsabilidades;
3. Estabelecendo regras democráticas de
convivência;
5. Permitindo que assumam, à medida que crescem
cada vez mais tarefas que lhe são próprias;
6. Tornando-os coparticipantes das decisões e
medidas do dia-a-dia da família;
8. Estimulando-os a colaborar toda vez que a
família se envolver em causas sociais, como doações, contribuições com alimentos,
roupas para orfanatos e campanhas assistenciais;
9. Estimulando-os a ser financeiramente
independentes, estabelecendo primeiramente uma mesada que deverá ser gerida por
ele;
10. Tenha muita, mas muita
paciência (esta dica é minha,).
Para Içami Tiba, outro estudioso do assunto, os pais
devem conversar sobre dinheiro com os seus filhos, tranquilamente, com
serenidade e sem exaltação, levando sempre em consideração a maturidade dos
mesmos. Tente explicar aos filhos que a
origem do dinheiro é sempre o trabalho, conscientizando-os que o dinheiro não é
“elástico”, ensina-los a distinguirem o necessário do supérfluo, desestimular o
consumo por impulso, orientar para não desperdiçar e como economizar. Mostrar o valor do dinheiro (coisas “caras e
baratas”), e por fim, resistir à tentação de presentear os filhos a todo o
momento e mais importante, não relacionar jamais ganho de dinheiro a desempenho
escolar ou tarefas domésticas.
O estudo realizado por instituições financeiras de Cartão
de Crédito, com jovens entre 13 e 18 anos na Argentina, Brasil, Chile,
Colômbia, Guatemala e México demonstrou como e onde os adolescentes costumam
gastar seu dinheiro. Entre os brasileiros, 83% afirmaram gastar
tudo o que têm no curto prazo, ou seja, em menos de 01 ano, e 76% informaram
que gastam dinheiro com compras por impulso.
O relatório da UNESCO[3]
de outubro de 2012 informa que a população jovem do mundo é a maior que já
existiu, que um em cada oito jovens está desempregado. Além disso, mais de 25% estão em trabalhos que
os deixam na linha da pobreza ou abaixo dela, com rendimento inferior a US$
1,25 por dia. O documento ressalta que a profunda falta de qualificação da
juventude é mais nociva do que nunca, principalmente em momentos de crises
econômicas como esta em que estamos vivendo.
Como mãe e
profissional na área de Finanças, acredito que o primeiro passo para a educação
financeira dos meus filhos foi à conscientização de quem somos nós, como é a
nossa família, onde estamos, como vivemos e o que queremos em um futuro próximo,
(3 meses) médio (2 anos) e longo (10 anos).
A parte prática é a
mesada, se tratando de crianças.
A falta de educação financeira poderá comprometer o futuro profissional do seu
filho e toda a sua família. O amado filhote
pode virar um peso morto nas suas costas e terá que trabalhar até aos 70 anos
para “ainda” criar a sua prole. Isso para aqueles que acreditam que um filho de
30 anos realmente precisa de ajuda financeiramente. Independência financeira é a primeira das
ditas “liberdades[4]”
da maturidade de um ser humano. Depois virão as outras liberdades, inclusive a sexual.
Não dá para inverter a ordem natural das
coisas (do mundo), dinheiro e tempo, não aceitam muitos
descontos, abstrações ou desaforos, demonstrarão rapidamente o sucesso ou
insucesso de uma vida inteira. Para toda liberdade há uma responsabilidade.
Abaixo relaciono um método que apliquei e
aplico nos meus filhos ao longo de 15 anos de observações e estudos sobre vida
familiar e dinheiro. Salvo alguns desvios aleatórios, o método tem dado certo em
minha família. Entretanto Família e
Filhos são diferentes e cada um tem a sua e o seu(s). A Mesada pode ser o primeiro passo para uma conscientização,
uma prática que se pode unir intelecto e comportamento, dois lados da mesma
moeda.: Ter liberdade financeira sem causar dependência emocional.
Mesada
04 a 07 anos:
“Cofrinho”, moedas de 05, 10, 25, 50 centavos e de 1 real. Define-se um
objetivo. Por exemplo: Comprar um brinquedo, fazer um passeio, algo que a
criança queira muito. O legal é ensinar os numerais, valores monetários e frações,
além de introduzir os conceitos econômicos de Dinheiro, Consumo e Poupança. Na
parte comportamental[5]
terá de aprender a controlar impulsos, esperar, poupar e investir. Ao final de
01 ano, abre-se o cofrinho, contam-se as moedas com a criança e leva-a para
comprar o que foi estipulado no inicio do ano. O importante não é o valor da mesada, é a
regularidade dos “pagamentos”. Atenção:
promessa é divida e combinado é combinado. Marque uma data específica e cumpra o
que prometeu, não abra o cofrinho antes da data, não deixe de colocar as
moedinhas e não prometa o que sabe que não poderá cumprir. Não cedam as
chantagens de abrir o cofrinho, como “Ah pobrezinho, terá que esperar 1 ano
para ter o brinquedo” irá dizer a tia, a vó, por favor, não ceda. Lembre-se:
educar financeiramente é uma questão de disciplina e persistência. Vocês, como
pais, também estarão se educando também. Não deixem de colocar humor, alegria e
risadas durante o processo. Aja como se fosse uma brincadeira, deste modo à
sensação do esforço, sacrifício e dor desaparecerá e então dará espaço ao início
de uma boa e saudável relação com o dinheiro.
08 a 13 anos: Mesada mensal: Essa idade é um
pouco mais complicada, é preciso ensiná-los o valor do “volume e rendimento”.
As chantagens serão mais intensas e o seu desafio será ainda maior. Não ceda,
lembre-se: Educação Financeira é como praticar um esporte, não se pode parar, do
contrário volta-se a estaca zero. Entretanto, deixe claro que os presentes (Aniversário
ou Natal) fazem parte da cultura familiar e serão respeitados, ou seja, não serão
comprados com a mesada. É preciso que eles, nessa idade, acreditem que mesada
não é punição e nenhum mecanismo de castigo. Do contrário poderão carregar a
sensação de que o dinheiro é ruim, poupar e ter dinheiro sugerem sacrifícios. E
isso não é verdade!
O ideal é estipular uma % (taxa) mensal para
seus filhos, baseado nos salários dos pais, honorários ou rendimentos. Desse modo
eles entenderão que aquele valor estipulado é justo em relação à situação
econômica da família e há uma lógica nesta decisão. Devem-se respeitar as
condições e classe social de cada família.
Comecem com 1%, 2% e 10% do menor salário da família: Por exemplo: Salário
familiar mensal de R$ 6.000,00 então seria 60,00 por mês. O usual para esta
idade é que não ultrapasse o valor de R$ 100 reais mensais. Importante: Explique como
estipulou o valor e como serão as condições do reajuste. Por exemplo: anual, de
acordo com o salário da família, na mesma proporção, e que poderá aumentar ou
diminuir de acordo com a situação financeira familiar A ideia é que possamos
ensinar que o dinheiro é algo que pode crescer e diminuir dependendo da
utilização. Faça-os entender de maneira pratica o conceito econômico “Utilidade[6]”,
que pode variar de pessoa para pessoa, mas é essencial que tudo seja explicado nesta
idade. Faça com que entendam que os gastos periféricos, por exemplo: balinhas,
figurinhas, capinhas de celulares, modinhas, podem comprometer o objetivo final.
O essencial
é que aprendam a juntar dinheiro (carteira ou cofrinho, ou caixinha) até ter a
quantia necessária para comprar o objeto desejado. Será uma interessante tarefa
de controle e paciência a ser aprendida por eles. Imprima empolgação nesta atitude, envolva toda
a família nessa nova rotina, comente com tios, avós sobre esta decisão, conte-lhes
como foi que você comprou uma casa, carro etc. Dê exemplos de pessoas de
sucesso com o dinheiro, por exemplo: Bill Gates no livro a Estrado do Futuro.
Fale de dinheiro de uma forma tranquila, feliz e normal, descreva-o como uma
habilidade a se adquirir por todos, jovens, adultos, crianças, idosos, como Jogar
futebol, cozinhar, mexer no computador, falar outra língua etc. É preciso que
eles entendam o correto funcionamento do dinheiro na vida deles, não alimente o
descaso ou indiferença e nem a extrema importância muito menos obsessão pelo dinheiro.
14
até a 18 anos: Continue com a mesada mensal e institua os
cartões eletrônicos de Débito, ou poupança, nunca o de Crédito. Chegou a hora
de ensinar-lhes o valor da porcentagem,
juros e rendimentos. Leve-os a
uma agência bancária, de preferência a mesma da família. Fale com o gerente e
abra uma conta poupança para ele ou uma conta “vinculada a sua” Entretanto é
essencial que seu filho tenha um cartão eletrônico, com nome e senha dele. Faça
com que o seu filho acompanhe todo o processo de abertura de conta. Inclusive assinatura
nos documentos, comente sobre as responsabilidades em ter uma conta em um banco
e quando foi que você abriu a sua. Faça desta ocasião um evento. E todo o mês no dia combinado faça o deposito.
Há muitas facilidades nos dias de hoje, veja alguns exemplos [7].
Ajude seus filhos a perceber as diferenças entre querer e precisar de alguma
coisa. Todos devem se acostumar, desde cedo, a viver dentro do seu padrão de
renda e a fazer seu orçamento pessoal.
A prática da mesada é até o adolescente ter
seu primeiro emprego, como parece estar cada vez mais longínqua a independência
financeira dos jovens adolescentes. Estes estão alongando a adolescência e,
portanto sugere-se que encontre um meio termo. Por exemplo: Até terminar a
faculdade, ou conseguir um estagio remunerado, é bom que tenham a sensação que
a mesada não será para sempre. Um dia ela vai acabar querendo ou não. Nesta
etapa o interessante é ensinar o Valor do dinheiro no tempo e a utilização de
cartão de débito, conta bancária, tarifas, juros e multas e ir procurando lhes mostrar
como é bom ser independente financeiramente. Você estará ensinando o valor do dinheiro no tempo,
o famoso conceito em finanças chamado VPL e principalmente ajudando-os a lidar
com a expectativa, o valor da continuidade e o valor de juros e rendimentos.
Ajude-os a planejar uma viagem[8]
e fazer um cofrinho na moeda local do país que vai viajar, por exemplo, Euro/
Dólar, ou deixar na poupança, faça-o procurar qual é o rendimento da poupança
naquele ano.
Pode parecer muito trabalho para os dias de
hoje, ou seja, os pais trabalham quase 12 horas por dia, pode ser impraticável.
Não se fiem nisso. Acredite a sua liberdade e a dos seus filhos estão em jogo. É só questão de rotina e disciplina, e uma conversa de pouco mais de 10 minutos por dia, os resultados serão imediatos e uma vez aprendidos será para sempre, como andar de bicicleta. Imagine ter filhos educados financeiramente ao entrar na Universidade no início da fase adulta é um grande valor. Aliás, acredito que esta é a maior de todas as heranças. Importante: estimule seus filhos a pagar suas próprias compras, introduza e fixe conceitos de regularidade e dependência do dinheiro para algumas coisas. Ajude seus filhos a perceberem as diferenças entre querer e precisar. Ensine também a importância de saber escolher, na hora da compra, entre o que é necessidade e desejo. Estimule seus filhos a comparar preços, fazer pesquisa, dê-lhe estas para que desenvolvam a percepção do que é caro e do que é barato. Evite comprar aquilo que eles considerarem caro, mesmo que você possa fazê-lo, agregue o conceito de custo-benefício[9].
Não se fiem nisso. Acredite a sua liberdade e a dos seus filhos estão em jogo. É só questão de rotina e disciplina, e uma conversa de pouco mais de 10 minutos por dia, os resultados serão imediatos e uma vez aprendidos será para sempre, como andar de bicicleta. Imagine ter filhos educados financeiramente ao entrar na Universidade no início da fase adulta é um grande valor. Aliás, acredito que esta é a maior de todas as heranças. Importante: estimule seus filhos a pagar suas próprias compras, introduza e fixe conceitos de regularidade e dependência do dinheiro para algumas coisas. Ajude seus filhos a perceberem as diferenças entre querer e precisar. Ensine também a importância de saber escolher, na hora da compra, entre o que é necessidade e desejo. Estimule seus filhos a comparar preços, fazer pesquisa, dê-lhe estas para que desenvolvam a percepção do que é caro e do que é barato. Evite comprar aquilo que eles considerarem caro, mesmo que você possa fazê-lo, agregue o conceito de custo-benefício[9].
Alguns produtos
bancários podem ajudar no controle dos gastos dos filhos quando os pais
não estiverem por perto. Um dos mais eficazes é o Cartão pré-pago,[10] que pode ser utilizado
pelos filhos para saques ou realização de compras desde que os pais tenham
depositado dinheiro previamente. É uma boa alternativa para os pais que já
sofreram com o descontrole de gastos dos filhos nos cartões de
crédito. Cartões pré-pagos de viagem, cartões de desconto e cartões de
presente, apesar de serem mais usados no exterior, também podem ser úteis na
“missão” de evitar que os jovens causem prejuízos.
Por fim, após os 18 ou 21 anos depende de cada
família, ter ou não, certa noção sobre
dinheiro[11],
a próxima grande conquista será a busca pela profissão, trabalho, a união do
gostar do que se faz e ser recompensado dignamente pelo o que fez. Será uma
nova fase, hora de colher o que plantou.
Sandra Almeida
Betachapeu
Finanças!
02/2013.
SP.
[1] BARRIE, James
(c1939). Peter Pan. Tradução: Maria Antonia Van Acker. Hemus, São Paulo.
[2] ZAGURY, T. Encurtando a adolescência. Rio de Janeiro: Record,
2010.
[3] http://www.unesco.org/new/en/media-services/single-view/news/developing_young_peoples_skills_for_work_is_a_must_new_unesco_report_urges/
[4] Escrevi um artigo sobre Liberdade Financeira e Sexual
na adolescência.
[5] Este é o meu principal tema na área Financeira, O
Comportamento. Escrevo um diário sobre o assunto resultado de alguns anos como
Consultora Financeira Pessoal.
[6] Estou escrevendo um artigo sobre o Conceito
“Utilidade”, este eu aprendi com o meu filho de 11 anos. Em uma viagem ao
Ceará.
[7] http://www.clickconta.com.br/Bradesco
[8] Este tema é importante para a minha Família, tem um
artigo sobre 15 anos & Viagem.
[9] Escrevi um artigo sobre este tema, aprendi com a minha
filha de 14 anos. Bolsa para Escola.
[11] “Sem noção”, este foi o tema de um artigo sobre as
minhas experiências de ser professora de Finanças para Alunos da Graduação.