segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Consumo & Experiências

Após um mês mochilando nos EUA posso dizer que aprendi o valor do custo agregado do What´s app e demais aplicativos. Além, é claro, da deliciosa oportunidade de viajar com filhos e  a confirmação de que educação financeira só funciona na prática, principalmente para jovens no início de sua vida de consumo. Como a viagem era presente de aniversário, aproveitei a deixa. Saí do Brasil com medo do cartão de crédito e firme no propósito de relaxar, afinal a viagem era dela (filha) planejada ao longo de 4 longos anos.

A primeira grande lição foi perder aquela sensação desconfortável de dizer: " admiro os EUA" sem o medo de parecer uma capitalista desumana ou consumista fútil e alienada. Mas também não parecer uma enrustida “ A Esquerda Caviar” (do Rodrigo Constantino) apesar do meu histórico socialista hippie dos anos 90. Sinceramente?! É impressionante o modo como os Americanos fazem negócios. Genial! Os caras sabem vender e vendem de tudo.

Nossa primeira parada, Washington DC, fomos a uma dúzia de museus, galerias e exposições, tudo grátis! Cidade moderna, bonita e tecnológica. Amei os supermercados self service! Tivemos a sorte de ver as comemorações de 4 Julho na casa do Obama rs,  e foi pertinho da Casa Branca que tivemos a primeira lição de finanças.  

Após mais um dia de Arte & Galerias passamos em frente a uma loja de roupas, se não fosse a arquitetura moderna e monstruosa da loja, tínhamos passado direto. Mas os olhos atentos da garota ao meu lado brilharam e ela gritou. ", Mãe é a Forever 21, vamos entrar". Me puxou pela mão e sem escutar alguns dos meus resmungos entramos na loja. Paradas e atônitas na porta principal e colossal da loja de departamentos, deu cansaço só de olhar para as escadas rolantes que mais pareciam uma montanha russa. Suspirei: fazer o que?  Então ela disse: " Mãe, vem comigo você precisa participar desse grande momento na minha vida"! 

 Ops!!!!  “Grande momento da minha vida”, eu ouvi isso mesmo? Como assim!!

E os Museus, Galerias, o Capitólio, a Estátua de Lincoln?, Nem consegui retrucar e ela já tinha desaparecido entre as centenas de araras e manequins da loja.  Depois de 2 horas, eu com olhar de paisagem, observei que havia gente de tudo quanto era jeito na loja. Havia algo em comum entre todas aquelas mulheres, homens e crianças, acho que é o jeito engraçado que temos quando estamos juntos e felizes escolhendo roupas, parecemos um bando de “passarinhos cantando”. O entre e sai dos provadores, os suspiros ao olhar no espelho, os personagens que viramos quando estamos comprando roupas, que pode ser de Sophia Loren á Scarlet Johansson, James Bond a Brad Pitt.

"Mãe, olha só o preço disso"?

"Olha a qualidade, maaeeee". "Nunquinha na vida íamos comprar uma roupa destas por este preço. "Isso sim é finanças, mãe. Escolhe uma mãe!" eu já escolhi esses 4" e saiu correndo com os braços cheios de roupas para o provador.  E nesse momento percebi que aquelas roupas eram muito mais do que “panos”, tecidos e adereços. Eram alguma coisa que não é material, cada peça de roupa trazia em seu conceito uma sensação emocional para quem a comprava. E como se viesse junto com a peça de roupa um mundo secreto, que só a dona da coisa comprada sabia. A roupa era a porta de entrada para aquele mundo de faz de conta, para quem já cresceu. 

 Aliás Conta!?, cartão de crédito, ops! acordei do devaneio!  

Bom, querida, adorei participar da “melhor experiência da sua vida” mas temos que fazer escolhas e o que temos para hoje é:  Início de viagem, 5 cidades a conhecer e 22 dias de alimentação, hospedagem, transporte e uma mala que suporta apenas 30 quilos. Lembre-se seremos nós duas que a carregaremos.  Além disso, só para constar, nosso gasto diário deverá ser R$ 70,00 dólares (all in) e, portanto, terá que escolher apenas uma peça de roupa por até U$ 30 dólares, se quiser almoçar hoje. E por favor decida nos próximos 10 minutos se não vou surtar, e você terá que me internar, os hospitais aqui são caríssimos e com certeza o nosso seguro viagem não cobre surtos psicológicos, pronto falei e fui para o caixa.

A reação dela foi a mesma coisa que terapia de casal. Acusações, chantagens, queda de pressão, ameaças, auto piedade, foi dos 16 aos 5 anos de idades em 3 segundos. Fui chamada de nazista, preconceituosa, desinformada, rancorosa e velhinha amarga por não ter tido uma Forever 21 na minha época, etc etc.  E eu lá na fila, com cara de poucos amigos, com o meu olhar de HP 12c, fria e calculista, nada disse.  Nesse momento lembrei – me do livro (O Império do Efêmero do Lipovestky) que discorre sobre a influência da Coco Chanel na economia francesa e internacional. De como o modo de pensar feminino nos anos 20 mudou uma época, como a roupa e seu formato estético influenciou uma geração, de como as mulheres se comportaram após a introdução da calça comprida. Uma única peça de roupa e sua força social e cultural no mundo.    

Com os braços cheios de roupas, ou seja “personagens”, ela  tinha que tomar uma decisão, apenas 1 roupa por $30. Olhei de soslaio e meu coração apertou, parecia que deixava partes do corpo no balcão, a cada peça que rejeitava, a coitadinha sofria, por fim escolheu um vestidinho (aliás o primeiro que viu de $28).  Veio para a fila do caixa com ares de sofrimento terminal e olhou-me como se eu fosse uma serial killer, deu um risinho cínico dizendo: "Escolheu um também mamãe?" Confirmei com um sorriso amarelo. E ela continuou dizendo: "Apesar de ser professora de finanças, ainda é mulher, né"?  

Sorri, lembrei -me  de quando era criança, na minha casa fazíamos rodizio de roupas entre as irmãs, era tão normal,  tínhamos que aceitar e ponto final!. E hoje percebo que não sofro por fazer escolhas. Saímos correndo da loja, vai que o arrependimento bate rs.  Lá fora, respirei aliviada e percebi que a gente procura no consumo algo que nos dê experiência de qualquer tipo, emocional, sensorial, física ou comportamental. E a compreensão deste “sentimento” sobre o que estamos procurando nessas “coisas” pode ser o começo de uma relação onde teremos mais experiências e menos consumo, menos “coisas” e  mais sentimentos, menos dinheiro e mais memórias, menos armários e mais lembranças e por fim, menos trabalho e mais tempo. E que não fará mal se tais “experiências” vierem embrulhadas em lindos vestidinhos de $28, obviamente, após de escolher muito e comedidamente, está é a chave para os filhos, ensinar medidas...





Serviço: O Hostel  Capital View de Washigton D.C , site: http://www.dclofty.com/about-us.html  era diferente do que estava no site, deixou a desejar no quesito limpeza, mas a localização compensou, perto de tudo, andamos o tempo todo a  pé. 

terça-feira, 20 de maio de 2014

A Utilidade das coisas...

 A Utilidade das coisas...

É uma viagem para EUA, uma lição de economia, finanças e consumo, principalmente viajando com uma adolescente de 16 anos.

Data marcada, 01/07 Primeiro destino SP / WDC e mais sete cidades americanas, sete albergues e cinco universidades, 22 dias e muita mochila.  Dia 02 a Bela Beatriz fará 16 anos, como presente, uma viagem para o destino de sua escolha.  E os EUA foi o escolhido, viajará com a mãe, por escolha própria e não por imposição, deixo isso bem claro, RS!

Esta viagem é o resultado de um teste empírico em que a mãe, esta que vos escreve, fez com seus pimpolhos quando estes estavam com 9 e 12 anos. Na ocasião pedi aos meus filhos que olhassem para o globo terrestre e escolhessem um país, a viagem dos sonhos, qualquer lugar valia.  A ideia surgiu a princípio para dar-lhes a visão objetiva de que nada é muito longe ou muito perto, nada é impossível, e tudo pode ser possível. Tudo ou nada depende de nós mesmos pode acontecer se assim desejarmos e planejarmos. Queria tirar a ideia material do consumo e incluir o valor do dinheiro para as coisas que não possuem preço. A disciplina é a chave para conseguirmos tudo que desejarmos, acredito.

Podemos consumir sonhos? Qual é o preço de um sonho? Seria um detalhe a aprender sobre a “utilidade das coisas”? Qual é a Utilidade de um Sonho na vida da gente?

O dia da Bia Chegou! O filho menor ainda vai esperar... Está no meio do processo.( na fase que acha que não vai conseguir...kkkk)

Minha dúvida: Será que é possível ensinar perseverança, paciência e resiliencia aos filhos? mesmo com  o twitter, what´s up, MSN?  São sentimentos tão fora de moda, paciência, no mundo deles é cafona. O Google responde tudo!

Venho pensando na “Utilidade das coisas”. Será que sabemos o valor do dinheiro? O dinheiro pode comprar tudo? E aquilo que o dinheiro não compra? Como saberemos o valor?

Depois que me tornei, mãe e professora de finanças ando perdendo o sono com as teorias de consumo que ando ouvindo... Quando meus filhos me pedem Iphone, Ipads, Ibooks e dizem que não conseguem viver sem net, sem cel., sem aplicativos penso: Ai meu Deus, qual é a utilidade destas coisas todas para eles? Quem são estes seres? Pergunto para quê? E eles não sabem responder ! ?
Outro dia um aluno perguntou: Este texto que a Sra. postou (pela plataforma virtual) é para ler, profe? Eu disse: Lógico, com espanto, seria para quê então? E então o rapazinho de 20 anos me disse: Que antiquado, profe, ninguém mais lê textos com 2 páginas, (2 páginas!!!!!) Cruzes!

Todos os dias vejo jovens completamente alheios a utilidade das coisas. Tenho 500 alunos por semestre, 60% desconhecem o que significa: Inflação, Juros, Taxa Selic, PIB e não sabem o porquê estão cursando um curso universitário. Não conseguem poupar, o preço das coisas pouco representa para eles, acho que na cabeça deles o dinheiro é de plastico e saí do banco desde que vc tenha a senha certa.  Não conseguem desligar o Iphone na sala de aula, é como se “eles” estivessem todos “plugados” ao sistema operacional central superior e vivessem em um mundo digital, virtual com muitas vidas e em busca de weapons  e scores cada vez mais potentes, não morrem nunca, sem esforços conseguem muitas vidas...  Bom deixe para lá…

A viagem é o resultado esperado de 4 anos de poupança. A espera foi por vezes um sucesso e em muitas, tortura. Passamos por todos os sentimentos, da completa desconfiança de que esse dia chegaria, a vontade de saquear o cofrinho para comprar “algo de extrema urgência", passamos pelo ódio mortal da minha filha em não poder “usar seu” dinheiro guardado para comprar o imprescindível modelo de cel. que “todo mundo tem”. E eu como mãe, sofri diversos tipos de Bullying, (da família, dos amigos, etc.). 

Será que os adolescentes ainda possuem sonhos? conseguem esperar? podem planejar?,   Será que ainda são um pouco parecido com que fomos  há alguns anos atrás?

Hum não sei, mesmo com dois testes empiricos aqui em casa ( 13 e 16) as vezes acho que sim, mas updated!   Igual mais diferente!

É preciso argumentação… das fortes, mas está tudo lá, guardado, só mudaram as embalagens. O santo Google é bom, somos nós, os pais que devemos mostrar “A utilidade das coisas”.  Criar é facil, é preciso educar!

Well chegou o meu dia,  tentar mostrar a “utilidade” das coisas na Meca do consumo, NY City! Grande lição para uma financista e sua filha adolescente.  Pela lista da Bia das “coisas básicas, úteis para a sobrevivência decente de qualquer menina de 16 anos” acho que terei mais uma longa aula sobre a “VPL” (valor presente líquido). Afinal entender a efemeridade do consumo é preciso mais do que o Google ou de Poupança, é preciso viver.  Escrevo quando voltarmos, desejem-me boa sorte!



Serviço: Poupança de quatro anos, de $ 50 a $70 por mês. Serão 22 dias de mochilão nos EUA, 6 hostels, 2 hotéis, divididos em 5 estados. Hostels e hotéis na faixa de $50 a 65 dólares por pessoa, Alimentação $ 30 dólares por dia por pessoa, transportes internos (trem e ônibus) média por trecho, $65 dólares, o resto é diversão. Passagens áreas, $ 2.800 compradas com 7 meses de antecedência.