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| Arquivo pessoal |
Sou mãe de jovens adolescentes e,
portanto, este texto é retirado de um
contexto empírico e não onírico. Há dois
anos, a angustia dos cursinhos e vestibulares imperam em nossa casa. “O que faremos
nos próximos 30 anos?” Interrogam-me todos os dias com seus olhos devoradores
de mães analógicas. “Você sabia o que queria ser quando tinha a minha idade, mãe?”
Penso: “esta resposta é uma cilada, pressinto...” Há uma dezena de discursos prontos para a resposta: O discurso que aprendi com
meus pais, o discurso econômico da minha época, o cidadão, o centro-direita, o
de esquerda, o neoliberal, o da mãe
coitada, o da mãe descolada, o da mãe culpada, o da mãe intelectual, o da psicanalisada, o da mãe do lar e por aí vai...
Mas observo que quando começo a discursar, me empolgo e eles não parecem me escutar ou entender. Logo querem
uma formula; um algoritmo! Parece que
nada e que ninguém saiu ileso do século 20...
No entanto, eles incansavelmente perguntam, inconformados com o simples “não”:
“Como é que você descobriu o que queria fazer quando tinha minha idade?” “ Se
não sobrar trabalho para mim, mãe?!” Por
alguns segundos reflito e penso: Eu não escolhi minha profissão, fui escolhida pelas circunstâncias, pelas
necessidades e pela escassez em todos os sentidos, porém, no meio do caminho,
acabei gostando e me aperfeiçoando por aquilo. Á medida que dava certo seguia ajeitando
o percurso. Os meus desejos e habilidades eram medidos de acordo com esse caminho
e, invariavelmente, não tínhamos opção, era a nossa condição de sobrevivência. Nós vivemos julgando essa geração
tal como éramos julgados por nossos pais e assim por diante. Desde Sócrates
seguimos criticando a geração futura – os “sem futuro”- preguiçosos, nenens, arrogantes e perdidos. Nunca o mundo nos
pareceu tão fácil e frágil como é para
eles, a geração xyz.
Eles desenham e desenharão o mundo de forma absolutamente diferente do
que era no passado. Mas é bom sabermos que essa geração criou o Smartphone, Netflix, Spotify, Uber, Waze, Instagram, Facebook
e Airnb. Foram eles que baratearam e democratizaram o uso da comunicação, de locomoção, do entretenimento. Retiraram as barreiras geográficas do mundo, sem falar que
proporcionaram a queda de muitos tabus e estereótipos sociais. E ainda é estranho como eles parecem não querer
nada com nada...
Eles buscam a experiencia do ser e negam a vontade
do ter. E por fim, respondo: “Ah, filhos! Eu não sabia, não tinha certeza! Mas
tive que tentar, atrever-me e enfrentar o erro. Errar nem sempre é ruim, todavia, é melhor do que não tentar”. E por fim, tentei fechar a discussão com uma
frase que gosto muito: “o caminho se faz
ao caminhar...”
Certeza? Eu não tinha de nada.

