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| Arquivo Pessoal |
Maria seguia feliz da vida porque
sempre gostara de trabalhar.
Maria chega aos 46 anos de idade, 30
anos trabalhados, não sabia o que pensar. Claro que não ia parar de trabalhar,
mas um ciclo chegara ao fim, sentia se orgulhosa e era preciso ter seu dinheiro
de volta, (aqueles aprox. 11% ao mês descontados do holerite) com a promessa da
Aposentadoria. E então inicia sua via-crúcis
ao INSS, idas e mais idas, marcações, remarcações, documentação e comprovação,
enfim chega a data.
Com 3 horas de fila em uma sala
imensa, mau-iluminada, apinhada de gente Maria se perguntava porque diabos pediam
para agendar hora na internet? Sua senha era 142 e estava no número 98, com
tempo de sobra Maria observava as dezenas de pessoas em péssimas condições
físicas naquela sala, pareciam todos integrantes do clip “Thriller” Michael Jackson,
nem todos eram para aposentadoria, não era possível?! Deviam ser para seguros,
saúde, doença, etc. Tristemente a grande maioria daquelas pessoas possuíam um
olhar de boi no matadouro, que ela nunca mais iria esquecer. Como o trabalho podia ter feito isso com
aquelas pessoas? Porque o trabalho parecia uma pena? Ela não entendia, a aposentadoria
era o momento final de uma sentença de 30 anos? E então os carrascos (agentes
do INSS) iriam definir os próximos 30 anos de vida em uma quantia que ninguém no
mundo sabia explicar o cálculo! Tinha gente que chorava, outros brigavam,
outros pareciam enfartar, outros ainda gritavam felizes como se vissem livres
pela primeira vez, era uma agonia aquela fila.
SENHA 142! Sua vez tinha chegado. Você está aposentada, porém sua idade não favorece
e nunca terá 100% de recebimento, mesmo se trabalhar até os 80 anos de idade. Começou
a trabalhar muito cedo, não é? Não compensa, portanto, será descontado da sua aposentadoria
52% do valor total, isso chama-se Tábua Atuarial. Nada podemos fazer, assine
aqui, disse o rapaz de uma vez só, sem respirar e gritou: próximo 143.
Maria teve a certeza então de fazer parte
daqueles filmes “nonsense”, modernos,
que é para os “sentidos”, é uma experiência, e não para pensar. Tentou argumentar que isso não fazia sentido,
que não podia ser punida por começar a trabalhar cedo e que trabalho era
virtude. O rapaz
disse que não podia fazer nada, e que reclamasse com o Governo, e que inclusive naquele momento estava sendo “impeached”. 143! gritou o rapaz.
Maria foi embora sentindo-se parte da boiada. Na rua parou em um café, analisou os
cálculos, extratos de todos os pagamentos, bem como a tábua atuarial, e então
chegou a conclusão, fora enganada por 30 anos! Nos papeis descobriu uma
pequena fortuna em forma de contribuição forçada e imposta por 30 anos de trabalho e que
ela nunca iria ter acesso, não desfrutaria e perdera a chance de administrar seu próprio dinheiro. Era seu
por direito, fruto de trabalho “forçado ou não”, mas era seu. Não lhe deram
opções, impuseram as condições e imposições, era Lei. E como Maria nunca pensou
nisso antes, agora não adiantava mais, somente ela cumprira a sua parte no
jogo, eles mudaram o jogo, as regras do jogo e o pior durante o jogo.

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