segunda-feira, 4 de junho de 2018

Em algum momento você vai pensar sobre isso.

Arquivo Pessoal

Maria seguia feliz da vida porque sempre gostara de trabalhar.

Desde seus 15 anos tivera bons empregos, facilitados porque também gostava de estudar, e nos anos 80 sua vida era bem definida.  Possuía duas das melhores coisas para ter um futuro, no mínimo promissor, a formula: Trabalho + Estudo = garantia de uma boa vida.  O mundo naquela época parecia bem definido, e os pais de Maria sabiam disso e viviam repetindo: Trabalho é virtude! e quanto mais cedo melhor!  Para eles não era uma opção de vida e nenhuma experiência enriquecedora trabalhar, era uma condição, necessidade e era natural. Se Maria não trabalhasse, não estudava, não morava, não comia, não viveria. Era preciso ainda ajudar seus pais, portanto, trabalhar não era excepcional, extraordinário, todos os seus amigos faziam isso, era supernormal e tranquilo, de boas.

Maria chega aos 46 anos de idade, 30 anos trabalhados, não sabia o que pensar. Claro que não ia parar de trabalhar, mas um ciclo chegara ao fim, sentia se orgulhosa e era preciso ter seu dinheiro de volta, (aqueles aprox. 11% ao mês descontados do holerite) com a promessa da Aposentadoria.  E então inicia sua via-crúcis ao INSS, idas e mais idas, marcações, remarcações, documentação e comprovação, enfim chega a data.

Com 3 horas de fila em uma sala imensa, mau-iluminada, apinhada de gente Maria se perguntava porque diabos pediam para agendar hora na internet? Sua senha era 142 e estava no número 98, com tempo de sobra Maria observava as dezenas de pessoas em péssimas condições físicas naquela sala, pareciam todos integrantes do clip “Thriller” Michael Jackson, nem todos eram para aposentadoria, não era possível?! Deviam ser para seguros, saúde, doença, etc. Tristemente a grande maioria daquelas pessoas possuíam um olhar de boi no matadouro, que ela nunca mais iria esquecer.  Como o trabalho podia ter feito isso com aquelas pessoas? Porque o trabalho parecia uma pena? Ela não entendia, a aposentadoria era o momento final de uma sentença de 30 anos? E então os carrascos (agentes do INSS) iriam definir os próximos 30 anos de vida em uma quantia que ninguém no mundo sabia explicar o cálculo! Tinha gente que chorava, outros brigavam, outros pareciam enfartar, outros ainda gritavam felizes como se vissem livres pela primeira vez, era uma agonia aquela fila.

SENHA 142! Sua vez tinha chegado.  Você está aposentada, porém sua idade não favorece e nunca terá 100% de recebimento, mesmo se trabalhar até os 80 anos de idade. Começou a trabalhar muito cedo, não é? Não compensa, portanto, será descontado da sua aposentadoria 52% do valor total, isso chama-se Tábua Atuarial. Nada podemos fazer, assine aqui, disse o rapaz de uma vez só, sem respirar e gritou: próximo 143.

Maria teve a certeza então de fazer parte daqueles filmes “nonsense”, modernos, que  é para os “sentidos”, é uma experiência, e não para pensar. Tentou argumentar que isso não fazia sentido, que não podia ser punida por começar a trabalhar cedo e que trabalho era virtude.  O   rapaz disse que não podia fazer nada, e que reclamasse com o Governo, e que inclusive naquele momento  estava sendo “impeached”.  143! gritou o rapaz. 

Maria foi embora sentindo-se parte da boiada.  Na rua parou em um café,  analisou os cálculos, extratos de todos os pagamentos, bem como a tábua atuarial, e então chegou a conclusão,  fora enganada por 30 anos! Nos papeis descobriu uma pequena fortuna em forma de contribuição forçada e imposta por 30 anos de trabalho e que ela nunca iria ter acesso, não desfrutaria e perdera a chance de administrar seu próprio dinheiro.  Era seu por direito, fruto de trabalho “forçado ou não”, mas era seu. Não lhe deram opções, impuseram  as condições e imposições, era Lei. E como Maria nunca pensou nisso antes, agora não adiantava mais, somente ela cumprira a sua parte no jogo, eles mudaram o jogo, as regras do jogo  e o pior durante o jogo.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário