terça-feira, 19 de julho de 2011

MINHA HISTÓRIA

Mulher maravilha volta ao lar

Depois de 20 anos de vida executiva larguei tudo para ficar mais com meus filhos, trabalhar menos e ser feliz

Essa é uma história de verdade, igual à de muitas mulheres que, como eu, estão no mercado de trabalho e ao mesmo tempo são esposas, donas de casa, mães, amantes, estudantes, conselheiras, amigas, filhas e o que a sociedade moderna exigir. Tudo isso sem deixar de ter bom humor, obviamente tentar ser magra, cabelo escovado, ética e amorosa... e sem descuidar da vida amorosa.

Todos os dias às 5 horas da manhã já acordava me sentindo cobrada e atrasada - e era apenas um dia comum de trabalho. Como sou divorciada e moro com meus filhos não tem divisão: todas as tarefas de casa passam por mim. Convencer os filhos a irem para escola, uniformes, lancheiras, escovar os dentes, reclamações, promessas e beijinhos apressados. Cardápio do jantar e do almoço na cabeça memorizando para ganhar tempo, lista do supermercado na bolsa, marcar dentista, ortopedista e oftalmologista para os filhos, abastecer o carro, pagar contas, ligar para o pai que andava doente, verificar as agendas escolares, pegar o livro do mestrado para ler no almoço, rascunhar o relatório sobre a reunião de ontem para o chefe, enviar uma dúzia de emails e ler outro tanto durante o café e, então, ir para a rotina diária de 13 h de trabalho.

Gostava do ritmo intenso, trabalhava desde os 15 anos de idade, mas nos últimos tempos percebia que o exagero tomava conta das pessoas, das empresas, do mercado financeiro e do mundo inteiro. Trabalhei por quase 20 anos em uma instituição financeira e conquistei meu desejo de infância: ser mulher de negócios bem sucedida, independente financeiramente, ser mãe e ter uma família. Cheguei lá, obviamente que cada um tem um “lá”. O meu era modesto, mas era o que desejava naquela época, mas carregava junto um histórico médico depressivo de angústia e estresse. Não era feliz. As jornadas de trabalho fora e dentro de casa eram tantas que não dava tempo para usufruir o “lucro” dos meus esforços. Sem falar na angústia para se manter no mercado executivo competitivo.

Um dia, ao sair para o trabalho, vi de relance a foto do caçula na parede da sala. Ele sorria um sorriso banguela de bebê. Senti saudades. Ele cresceu. Onde estava que não vi o tempo passar? Tive medo da resposta. Fechei a porta com a famosa culpa materna pesando nas costas e com a desculpa “é para o bem deles”, parei.

Mas o bem deles não poderia ser à custa da minha infelicidade, pensei. Fiz uma análise fundamentalista da situação, desenhei o pior cenário, classifiquei os riscos e chamei a família para conversar. Deixei casa, família, mercado financeiro, Bolsa de Valores, taxa do dólar, crise financeira de lado. E desenhei o projeto “Volta ao Lar”. Como voltar ao lar depois da luta das mulheres pelo espaço no mercado de trabalho? E a Simone de Beauvoir, a igualdade de direitos, a queima de sutiã em praça pública, a música da Amélia mulher de verdade? Virar dona de casa depois dos conference calls negociando contratos milionários. Foram 10 dias de insônia e uma certeza. Volto para casa com todas essas guerras ganhas! Ficar em casa agora é opção e não obrigação. Mãos à obra.

Lancei mão do meu conhecimento sobre finanças, networking e raciocínio estratégico. O plano era transformar tempo em moeda financeira a meu favor. Negociar a demissão foi à etapa mais difícil, afinal eram quase 20 anos. O coro dos amigos e familiares era intenso: “Meu Deus! Você está louca e doente, pense nos filhos, você está madura para o mercado, é melhor se aposentar primeiro”. O namorado desconfiou que eu não agüentasse a barra de “dona de casa”. Mas não adiantava explicar que jamais seria aquela dona de casa do nosso imaginário. Dos filhos, únicos aliados, ouvi gritinhos “eba mamãe”.
Após a negociação da minha saída e a certeza de que eu não iria para o concorrente, ganhei um acordo. E isso significava pequena reserva financeira para os próximos passos. Teria que reduzir em 45% as despesas domésticas caso contrário as reservas não durariam nem 18 meses. No último dia de trabalho era o próprio cachorro que caiu da mudança. E agora? A estratégia era administrar o lar, trabalhar em períodos alternativos para diminuir o custo de empregadas, babás e motoristas, (consumiam 30% do salário), combinar colégio das crianças, atividades físicas, trabalho fora e dentro de casa.
• Troquei empregada mensal por semanal: redução de 15%.
• Dispensei transporte para os filhos: economia de 7%.
• Cancelei academia e atividades extracurriculares das crianças, nos matriculamos em cursos gratuitos. Redução de 7%.
• Supermercado de mensal para semanal, só industrializados e lista na mão, frutas e legumes compraria em sacolões e feiras livres: economia de 10%.
• Revi contas de consumo (internet, telefone, celular, gás, luz, água): redução de 15%.
• Aprendi manicure e a cuidar dos cabelos: redução de 7%.
• Roupas, só uma vez ao ano, compradas em liquidações: economia de até 25%.
• Viagem de férias com poupança mensal, passagens aéreas antecipadas e noturnas, destinos menos badalados e surpreendentemente mais exóticos.
• Aprendi a cozinhar. Comida “chique” só final de semana.
• Investimentos são mínimos, por enquanto: poupança mensal de 10% das receitas, que agora são variáveis. Ao atingir valores expressivos compro ações, dólar ou aplico em fundos.

Esses 15 meses de volta ao lar foram dignos de um gladiador. Conscientizar-se de todas as formas de desperdício, não só financeiro, mas afetivo, moral, intelectual e emocional é um processo para a vida toda. Sabemos que estamos no início, mas os resultados são imediatos.

Sandra Almeida Silva é mestranda em Finanças, professora, consultora de finanças pessoais e desenvolve projeto de pesquisa na área de Risco Corporativo Financeiro.

*Artigo Publicado na Elas e Lucros, no.8 ano 2009

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